Search for:

As mulheres e a necromancia na Grécia Antiga

Johann Heinrich Füssli – Tirésias Aparece para Ulisses (1741)

O tema da morte sempre intrigou a humanidade, cada cultura criou a sua forma de enxergar e lidar com essa parte inevitável da vida. E não foi diferente com o povo grego. Ritos fúnebres eram empregados no momento da morte, criou-se crenças em torno desse momento enigmático, como por exemplo, que o contato com a morte e com o morto gera tipos de miasmas diferentes, relacionados principalmente a forma como a pessoa morreu. E claro, criou-se também a prática de contato e evocação desses mortos para a magia.  A necromancia na Grécia Antiga era uma prática de domínio feminino, enquanto que a psicagogia era uma prática de domínio masculino (Bandeira, 2025). Vamos entender a diferença entre as duas?

Necromancia, do grego clássico νεκρός, nekrós, “morte”; e mancia de μαντεία, manteía, “adivinhação”, era um tipo de prática mágicka que manipulava os mortos com a finalidade de adivinhação ou realização de magia. Já, Psicagogia, do grego clássico ψυχαγωγία de ψυχή “alma” e ἄγω “conduzir”, que literalmente significa orientação da alma, era utilizado para se referir a rituais de evocação de almas também com o intuito de adivinhação ou prática de magia. Parece a mesma coisa, porém não eram consideradas a mesma coisa.

A psicagogia era a prática de evocação das almas através de rituais de sacrifícios, realizados por profissionais homens, com o intuito de apaziguar essas almas, para que não pudessem incomodar os vivos, ou ainda para que elas pudessem auxiliar em algum tipo de magia prática ou adivinhação.

A necromancia, também se tratava da evocação da alma de um morto para realização de práticas de adivinhação e magia, porém com uma diferença, aqui há manipulação do corpo ou de parte do corpo do morto em questão, como por exemplo nas magias de katadesmoi. Onde uma placa de imprecação contendo o feitiço escrito, era depositada na mão direita de uma alma inquieta, ou seja, alguém que tenha morrido de morte violenta, suicídio ou “antes do tempo” (crianças), para todos os tipos de fins.  E neste caso, essa era uma prática de domínio feminino na Grécia Antiga. E quem realizava essa prática era chamada de necromantis, que significa “aquela” que questiona os mortos. Em ambos os rituais havia evocação da alma do morto, libações e sacrifícios de animais.

Mas porquê há essa divisão de gêneros e o tipo de prática necromântica?

Apesar da conclusão de que os rituais de psicagogia e necromancia são bem parecidos e que possuem os mesmos objetivos, não fica muito claro o porquê dessa divisão entre mulheres e homens. Porém, “os gregos acreditavam que a natureza feminina, marcada por processos como a menstruação, conferia às mulheres um miasma especial, tornando-as capacitadas para conduzir rituais de contato direto com os mortos” (Candido, 2021) e que os homens só estariam preparados para realizar esse tipo de ritual após passarem por iniciação no culto de mistérios.

Vale lembrar que tanto a necromancia como psicagogia não eram práticas oficiais do Estado grego e sim privadas e marginalizadas. Apesar disso, eram realizadas em toda a Grécia, desde o período arcaico, pelo menos.  De acordo com Faraone (2005),”a desaprovação generalizada da sociedade romana impactou negativamente as interpretações modernas da necromancia, levando muitos estudiosos a rejeitarem o tema, atribuírem-no exclusivamente aos tessalienses e negarem sua existência na sociedade grega da antiguidade”.

Mas uma vez, podemos ver como as questões de gênero, políticas e de moral interferiram no registro de práticas religiosas e mágickas da Grécia Antiga. Onde as práticas que eram consideradas moralmente aceitas, eram tidas como práticas oficiais do Estado Grego e as outras, ainda que fossem largamente difundidas, eram colocadas como práticas marginalizadas e praticadas por “estrangeiros”.

Referências

BANDEIRA, Lennyse Teixeira. A necromancia na Grécia antiga. CALÍOPE: Presença Clássica |2025.1 . Ano XLII . Número 49 | Separata 8.

FARAONE, Christopher. Necromancy Goes Underground: The Disguise of Skull- and Corpse-Divination in the Paris Magical Papyri (PGM IV 1928-2144).

BANDEIRA, Lennyse Teixeira. Os rituais de evocação dos mortos e as relações de gênero na grécia antiga.

CANDIDO, Maria Regina. Filtrokatadesmos: a simbiose entre os deuses gregos e egípcios nos períodos clássico e helenístico. Romanitas: Revista de Estudos Grecolatinos, n. 17, p. 107-123, 2021.

Leave A Comment

All fields marked with an asterisk (*) are required

não é permitido